JUVENTUDE
No pobre leito teu, desfeito ainda
Aponta a febre que não dorme
E tu lânguida na noite te debates
Em vãos delírios anelando a vida
D’um vivo carmesim dessa corola aberta
Numa cinzenta nebulosa és desperta
Te assalta um espírito sinistro
Abraçando-te a alma como um Nero
O encanto de teu sonho se evapora
E se vão as nuvens néctares de ventura!
Numa conspiração o destino tirou-te o mundo
Aquele de que gostavas e te foi surdo
Eis tu, agora, errante a vagar incerta
Como infeliz pagão amaldiçoado
Procurando quem lhe reverta
À um bom momento já passado...
Enquanto os pesadelos escurecem a mente
Na cama teu corpo indolente
De tão vivo, tão rosado
Vai tênue embranquecendo
A cruel doença te deseja e te possui
De nada adianta entoares tristes uis
Pois a doença é cega e surda
Também não te fala, pois é muda
Numa quase roxa miragem
Vês a ventura além
A esperança move-se no espaço
E arrimas o fraco passo.
Seria melhor voar
Os ares rápido singrar
Pedes aos deuses asas
E eles te dão asas
Teu ser move-se a sacudir loucura
A ganhar mais e mais altura
O roxo visto do elevado
É algo mais diáfano, mais rosado
Ardentes gotas de licor dourado
Caem do sol já perto
E tu, como que desmaiando,
Vês a luz clarear teu peito
Aí tantas visões se passam
Que se misturam
Em teu palpitante ser
Numa aura de sofrer e prazer
As sombras do amanhã
Quando ressurges dourada
Morrem todas na manhã
Que trazes iluminada
Os tolos poetas do spleen
Dizem à tua sorte amém
Esquecendo o que já foi dor
Deixam ao sofrer, bolor...
HTSR/008714051982
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