ADOLESCÊNCIA
Aqui existe falsidade
Sim... muita falsidade
Como isto me entristece
Como isto me enfraquece
Por que, entre tantos “mundos”,
Ela escolheu logo este?
Este pequeno mundo
Para espalhar sua peste?
Logo o meu mundo
Meu triste mundinho
Onde pus tanto sonho
Onde ainda vinha sonhando
Quanto me foi de amor
Quanto me foi de calor
Quanto me foi de vida
Só de vida mentida
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não!
Eu só transmito
O que me sente o coração.
Aqui é tudo tão falso
Que pensam que também sou falso
Assim fosse meu pensamento
Assim fosse meu tormento
E eu que pensei ter encontrado alegria
Vi que é uma alegoria
Que em uma dor imensa
Só quer dizer farsa
Vazio encanto ébrio de si
Só de segui-lo me perdi
Por que o desejei?
Quanto me iludi!
Tudo que sonhei é um enigma
Que se esconde não sei onde
E a minha alma já cansei
De procurar debalde
O que me dói tanto
Não é o que há no coração
Mas sim o desencanto
Dessas coisas que nunca existirão
São formas sem forma
Que passam depressa
Sem que conhecer as possa
Ou as sonhar a alma
Porque é tudo tão falso
No que há e no que penso?
É tudo um indesejo
No mundo que vejo
Contemplo o que não vejo
Num tarde quase escuro
E quanto ao meu desejo
Ficou além de um muro
O amor me foi começado
Num ideal que não acabou
Mas que já se enfadou
Por ser tão enganado
Sonhei que fui feliz
Veja o mal que fiz
Me enganei tanto
Que estou ficando morto
Como um réquiem de saudade
Estou compondo esta poesia
Na dor que minh’alma esvazia
Rindo triste da verdade
Antes fosse tudo inverdade
Não perceberia a falsidade
Não sonharia tanto
Não almejaria tanto
Quando se pensa ser amado
Na verdade nem se é gostado
É-se um mero esquecido
Um pobre desprezado
Oh triste verdade
Triste verdade
É tudo tão falso
Tudo tão falso
Por que fui descobrir isso agora?
Pobre de minha vidinha
Pobre coitadinha
Tão boba, tão sonhadora
Tenho tanto sentimento
Que me perco em pensamento
Imaginando a falsidade
Ser uma tímida verdade
Se fosse outro, seria outro
Se em mim houvesse certeza
Não seria fluído neutro
Teria decerto mais firmeza
Mas já me ronda a incerteza
Dum mar de dúvidas e poréns
Me falta a clareza
Que de ao meu sofrer amén
Então me iniciaria na luz
Ainda que em dia tristonho
Porque o limiar é medonho
E todo o passo é uma cruz
Mas tudo isso é ufanismo
Minha crença é infantil
Mas o mundo é mesmo vil
Um poço de demagogismo
A minha vida sentou-se
E não há quem a levante
Ela já está doente
Minha vida fartou-se
Fartou-se do que é falso
Da almejar o que não posso
Torpe mundo de cinismo
Fez de minha vida um cataclismo
Só agora descobri
O que realmente me rodeia
E de vergonha me cobri
De ver onde meu ser devaneia
Entre o que vivo e a vida
De minha atual estada
Prefiro aquela descida
Que me leva ao nada
Qualquer coisa me valerá
Melhor que a vida que tenho
Esta vida de estranho
Que só me dilacera
Tivesse eu conseguido
Nunca saber de mim
Ter-me-ia esquecido
De ser real assim
HTSR/006310051981
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